Sóbrio e terno

Antes de começar este texto, fiquei um pouco aflito pensando em como iria retornar a me expressar através da escrita. Foi aí que me veio a seguinte questão: “mas eu estou retornando?”.

Retornar é, grosso modo, “voltar ao ponto de onde partiu” e, neste momento, todos meus esforços estão em não passar pelos mesmos caminhos, não insistir em rotas que não levam a lugar algum ou que me distanciam dos meus objetivos. Na realidade, este texto de hoje é um “ir”, e era de se esperar que não fosse fácil.

Aliás, nos últimos meses, tenho enfrentado várias mudanças de rota na busca por caminhos mais coerentes com meus objetivos pessoais e espirituais. Confesso ser doloroso perceber que alguns desses percursos, embora regados de boas e carinhosas lembranças, não são mais por onde eu deva e queira seguir. A verdade é que não tem como sair ileso, ou isentar do sofrimento as pessoas que dividem a caminhada conosco quando isso acontece.

Não faz parte de mim reforçar a cultura de algumas doutrinas religiosas, que pregam o sofrimento como uma forma de expiação e purificação. Eu acredito no sofrimento, sendo nós os sofredores ou as testemunhas, como uma oportunidade que nos densifica, que nos permite — se estivermos dispostos — um amadurecimento em amplo aspecto.

Sofrer é inevitável em alguns casos, e saber o que fazer com isso é fundamental. No momento que nós mudamos de rumo e, consequentemente, rompemos os laços com as pessoas, lugares etc. que fazem parte dele, um pedaço de nós se rompe também. A ideia expressa na palavra “rompimento” traduz exatamente a sensação: uma repentina e abrupta separação.

Isso é natural e esperado. Com o tempo essa lacuna, esse buraco irá ser preenchido. Cabe a nós decidirmos com o quê. Façamos, nesses momentos de luto, por onde ser elaborada uma nova versão de nós mesmos. Mais madura? Mais sábia? Mais compreensiva com nossos próprios defeitos? Menos severa com nós mesmos? Bom, o que for preciso para compor um novo EU — no seu tempo, claro.

Densificar e não endurecer

O maior desafio é aplicar essa sobriedade sem perder a ternura. Ao perceber que “algumas coisas são exatamente como elas são” aceitamos que a vida é, também, isto: um monte de coisas que acontecem ao mesmo tempo, de formas diferentes, inseridas em contextos diversos dos quais parte temos controle e parte não, sem estamos prontos, ou dispostos para enfrentar tudo.

Essa sobriedade é o que nos faz não perambular pelas oscilações naturais do mundo composto, ao passo que a ternura não nos permite endurecer por dentro. Denso não é o mesmo que duro. Densidade é um profundo mergulho dentro de si e do próprio autoconhecimento. Endurecer é perder a sensibilidade com o próprio eu, ou pior, com o outro.

Mudança de rota

As mudanças de rotas são tão necessárias quanto chegar ao objetivo, tão somente por elas provocarem em nós essa entropia. Uma vez que já se chegou aonde um dia quisera chegar, a jornada acabou. Portanto, me pergunto: como eu, Nivartan, vou chegar aonde quero chegar? Como você, carx amigx leitxr, quer chegar aonde você planeja chegar? Essa pergunta é imprescindível.

Não espero de nós a cobrança de preencher esses espaços e que saibamos lidar plenamente com os rompimentos dos ciclos, afinal, — como já disse anteriormente — é tudo ao mesmo tempo agora. Só não desanime! Há um mundo vasto para se viver e sonhar, no lugar de se apegar às rotas que só nos embaralham. É preciso aceitar o fim dos ciclos com maturidade, reerguer-se e ir!

Pensando bem — estando eu cheio de lacunas dos ciclos rompidos nos últimos meses —, ainda vou levar um tempo para conhecer quem escreve para vocês agora, embora o compromisso em levar algo útil seja o mesmo de onde eu parti. Sinto, com curiosidade e otimismo, que com todo caos aparente, toda ressignificação envolvida, todas as decisões difíceis que foram e que serão tomadas, eu estou aqui. Sóbrio e terno.

Acima de tudo, indo.

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